ustavo Piqueira é Diretor da ADG desde 2000. Formado
pela FAUUSP, é arquiteto, designer e fanzineiro desde moleque. Já no Colegial (atual Ensino Médio),
distribuia zines com histórias em quadrinhos. Hoje, com 31 anos, já não é mais moleque. Em 1990,
ingressou na FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), onde conheceu seus atuais sócios,
[Marco Aurélio] Kato e Valter [Botosso Jr.]. Juntos, passaram boa parte das anos de Faculdade no
Laboratório de Produção Gráfica da FAU, o que ajudou a construir um amplo repertório gráfico e também
a conhecer os processos de produção gráfica, principalmente os manuais.
Também juntos, começaram a participar de concursos de identidade visual e os resultados positivos foram
dando confiança. Depois de formados trabalharam juntos por 2 anos em um escritório grande e em 1997
montaram a Rex Design. Logo em 1998 ganharam um prêmio na IV Bienal da ADG. Na última bienal da ADG
foram a empresa com mais trabalhos selecionados para a mostra. Hoje a Rex tem uma equipe de 16 pessoas
entre designers e estudantes de design - e tanto o atendimento ao cliente quanto a produção gráfica
ficam a cargo do designer reponsável pelo trabalho. Em 2002, o escritório foi eleito 2º melhor do
Brasil pelos designers gráficos na votação da revista "Design Gráfico".
A Rex hoje é responsável por algumas contas grandes de produtos, como Omo, Lux, Dove, Comfort, DanUp,
Tang, Trifil, entre outros. O escritório atende também várias editoras - Atica, Melhoramentos, Martins
Fontes, DBA, Unesp - além de clientes diversos para trabalhos de identidade visual, catálogos e
folhetos, sites, sinalização, enfim tudo o que cabe dentro do universo do design gráfico.
Gustavo também tem algumas de suas fontes distribuídas pela t26 de Chicago, outras estão disponíveis
no site da Rex (que em breve ganhará mais 3 fontes novas para download). As fontes disponíveis no site
foram publicadas no livro norte americano "Free Fonts! Designers Fonts Online", o que fez com que
houvesse um número muito expressivo de downloads do mundo todo. Em meio a tudo isso, ainda sobra tempo
para ministrar regularmente na Faculdade Senac de Comunicação e Artes o curso "Criação de Fontes
Digitais".
Na entrevista abaixo, Gustavo fala sobre o design brasileiro, a Rex e a ADG. Acompanhe:
DESIGN EM GERAL
Como você vê a questão da regulamentação da profissão no Brasil?
Entende-se que a tendência seria melhorar o design produzido, mas também é uma atitude vista como
reserva de mercado. Qual a sua posição frente à essa questão?
Eu acho que as pessoas apostam demais suas fichas na regulamentação, como se todas as mazelas da
profissão decorressem exclusivamente do fato de não termos uma profissão regulamentada.
Particularmente, acho que isso reflete a grande imaturidade e que existe entre nós designers: não
seria melhor se, ao invés de esperarmos que algo venha nos salvar, nós nos uníssemos e adotássemos
posturas éticas e de posicionamento frente ao mercado que nos diferenciem de micreiros e que evitem
que agências de publicidade 'dêem' marcas a seus clientes?
O N design deste ano discutirá quatro questões centrais: Necessidade Social, Sustentabilidade,
Competitividade e Necessidade de Formação. Qual o papel do designer na sociedade brasileira? Ele só
produz para a elite ou pode produzir para outros públicos?
Há algumas semanas eu e o Kato - meu sócio - fomos jantar e havia, sobre a mesa do restaurante, um
folheto de uma Ong que cuidava de crianças carentes ou algo do gênero (ou seja, uma causa mais do que
nobre). Contudo, a marca da Ong era péssima: uma idéia infeliz baseada em um trocadilho primário com
uma execução graficamente muito pobre. Passamos boa parte do jantar discutindo sobre isso, sobre se o
simples fato de fazer um trabalho provavelmente beneficiente para um cliente sem recursos e que
defendia uma causa nobre é a função social do designer - não importando que o trabalho em si fosse
uma merda. Logicamente chegamos a conclusão de que não.
Quantas pessoas repetem o bordão 'A Nike contrata crianças na Ásia'? Quantas dessas pessoas realmente
estão preocupadas com as crianças da Ásia? Também acho condenável o fato da Nike contratar crianças
na Ásia, mas não acho que se a Nike parasse de fazer isso a vida dessas crianças iria melhorar:
provavelmente elas continuariam trabalhando, provavelemente em condições tão ruins quanto. Então acho
que as pessoas precisam parar de simplesmente repetir o que elas ouvem e se aprofundar na compreensão
real do mundo que as cerca. Acho muito perigosos achar que, por repetir que 'A Nike contrata crianças
na Ásia' e boicotar seus produtos, a pessoa sinta que é um cidadão consciente e que tem uma
preocupação/atuação social - todo designer tem por obrigação conhecer a fundo a época que vive - e
sacar como as coisas realmente funcionam (e quanto mais você se aprofunda, mais você inevitavelmente
descobre que, na tradicional visão maniqueísta de mocinhos contra bandidos, muitos dos mocinhos da
história não são tão mocinhos quanto parecem...) Carregar bandeiras que vêm prontas não vai fazer
diferença alguma.
O papel social do designer é se comunicar com as pessoas - criar informações visuais novas para elas,
sofisticar seu olhar, aumentar seu repertório visual. Nos dias de hoje, o design gráfico é um elemento
cultural poderosíssimo para reduzirmos sua função social a qualquer esfera ideológica. Aqui na Rex,
fazemos trabalhos para todo tipo de público - desde as classes mais baixas da America Central até o
circuitinho sofisticado Jardins/Itaim, atendendendo desde mega multinacionais até pessoas que não tem
dinheiro nenhum para nos pagar e tentamos fazer sempre o melhor possível: ninguém é melhor ou pior do
que o outro por princípio. Trabalhamos para atingir e dar poder de informação visual às pessoas - sem
distinção de classe, cor, país...Enviamos nosso portfolio gratuitamente para quem pedir, não importa
se é um cliente em potencial ou um estudante de design.
Existe uma preocupação crescente em atribuir uma identidade brasileira aos trabalhos de design
produzidos aqui. Ao mesmo tempo a internacionalização das estéticas e tendências pasteuriza o nível
dos trabalhos. Você acredita que nesse cenário é possível caminharmos para um design tipicamente
brasileiro ou não? E em que medida isso é bom ou ruim.
É fundamental que um designer transmita, em seus trabalhos, seus valores e sua identidade. Mas também
acho fundamental que saibamos que essa identidade e esses valores são, inevitavelmente, impossíveis
de serem sintetizados em um único 'ser brasileiro' .
O Brasil é um país com composições étnicas/sociais/culturais muito diversas e a busca dessa síntese
absoluta numa única identidade tende para a tradicional imagem folclórica que os gringos tem do Brasil
- futebol, sexo, samba, capoeira...
Ora, eu cresci num apartamento de classe média no meio de São Paulo, não ouvia samba ao andar pelas
ruas nem via rodas de capoeira, não tem praia aqui para eu assitir a sensualidade brasileira desfilar
pela minha janela ...quer dizer, eu seria um puta hipócrita se esses fossem os elementos que eu
incorporasse em meu trabalho como se fosse meu background.
Sou brasileiro - mas eu vou colocar no meu trabalho a minha identidade real - e se os Ramones me
diziam mais sobre quem eu era do que o Caetano Veloso, pouco me importa se eles são americanos e o
Caetano brasileiro. Se Proust foi importantíssimo na visão que tenho das coisas não fico me sentindo
um idiota pasteurizado porque ele era francês - não gosto de nacionalismo, mesmo que seja um
nacionalismo disfarçado de 'afirmação de valores' - e tenho o mesmo desprezo por quem apenas consome
o que vem pronto dos EUA como por quem apenas consome o que vem pronto do Brasil: o designer não deve,
de forma alguma, ser um mero consumidor, seja do que for.
Isso não quer dizer, de forma alguma, que não acho importante que valorizemos o design gráfico no
Brasil. Acho apenas que isso tem que ser feito de forma a refletir nossa principal característica que
é a diversidade. Tudo o que o Brasil não precisa neste momento é de visões simplistas - se nossa
herança cultural é difusa, que assumamos isso logo de vez ao invés de buscar exclusivamente em
elementos folclóricos nossa identidade. Que, ao invés de nos preocuparmos se nosso design tem cara de
'brasileiro' ou não, nos preocupemos se nosso design é bom ou não - e essa preocupação envolve uma
série de fatores complexos .
A introdução da informática no mundo moderno influenciou diversas profissões e extinguiu outras.
Quais as consequências desse novo meio para o design?
Acho que o design está entre as profissões que mais sofreram o impacto da revolução tecnológica que
vem acontecendo nas últimas duas décadas, já que o próprio modo de produção foi alterado em sua
essência. Não cheguei a trabalhar profissionalmente na fase da prancheta, mas alguns trabalhos feitos
sem computador durante a faculdade no início dos anos 90 foram suficiente para poder imaginar o
impacto que isso teve. Além disso, a popularização dos softwares gráficos teve um papel
importantíssimo no aumento exponencial que temos assistido no número de profissionais, estudantes e
cursos de design.
Apesar ainda de se ouvir aqui e ali algumas vozes saudosas dos velhos tempos, acredito que o
computador e os softwares com os quais os trabalhos de design gráfico são executados hoje em dia não
pasteurizaram o design: o controle que nós designers temos do resultado final é infinitamente maior
do que tínhamos anteriormente e não acho que um trabalho vai sair pior só porque você começou a
projetá-lo diretamente no computador, não acho que é fundamental que você faça os roughs na mão
primeiro - cada trabalho pede uma solução e cada solução tem seu processo próprio de desenvolvimento.
De qualquer forma, não há como negar que, com softwares muito fáceis de usar, muitas pessoas se
acharam aptas a projetar uma marca e os resultados não têm sido nada agradáveis, mas acredito que o
próprio mercado vai separando o designer do micreiro, é só dar tempo ao tempo.
Com a consolidação do mercado de design, foram surgindo algumas especializações, hoje existem
escritórios de marca, de embalagem, de webdesign, produção gráfica, editorial e assim por diante.
Quais caminhos você apontaria para quem prefere a formação generalista e quais para o especialista?
É um pouco difícil dizer o que cada um deve fazer, mas acho que em linhas gerais as pessoas deveriam
parar de procurar fórmulas prontas para serem profissionais bem sucedidos - e esse é um fenômeno que
atinge todas as áreas, não só design. Se sai em algum lugar que é preciso fazer MBA fora, vai todo
mundo correndo fazer MBA fora (mesmo que seja numa universidade meia-boca do meio oeste dos EUA), se
falam que é preciso falar 'x' línguas e mexer em 'x' softwares, lá vai a manada se matricular em
escolas de línguas e softwares. E, no fim das contas, as pessoas acabam perdendo o foco do que é ser
um profissional qualificado - não importa se 'generalista' ou 'especialista'.
Os dois melhores conselhos sobre isso ouvi de meu pai, um quando ainda estudava e estava perguntando
para ele, todo inseguro, 'como eu iria conseguir me inserir no mercado?' ; ' como iria arranjar
clientes?' e etc. e ele, como a maior simplicidade do mundo me olhou e respondeu apenas: "Seja bom.".
O outro foi quando havíamos acabado de abrir a Rex e eu estava puto com um cliente, estava xingando o
dito cujo para ele e ele - mais uma vez com a maior calma do mundo - me disse para não encarar isso
como um assunto pessoal, eram só negócios. Ou seja, de ambos o que tirei como lição foi não perder o
foco no essencial, não ficar desviando do assunto por inseguranças pessoais - seja por orgulho ferido
ou por estar andando no sentido contrário da manada.
Quais as características que você considera importantes em um profissional?
Se você pensar na enorme diversidade de elementos que compõe o processo global de um projeto ("vender"
o trabalho, executá-lo tecnicamente, coordenar sua produção, cumprir prazos, atender ao briefing do
cliente e ao mesmo tempo expressar algo de autoral...) fica bastante claro que quem investe apenas em
um dos lados da profissão não se tornará um profissional completo, não importando se esse lado for o
artístico, o técnico ou o business.
Existem ,é claro, exemplos bem sucedidos que se apóiam mais em um desses lados - e que até admiro,
não importando que façam coisas bastante diferente do que faço - mas particularmente acho que um
aprofundamento em cada um desses aspectos e (o mais difícil) a convivência harmoniosa disso dentro de
nós é uma das coisas mais importantes.
Também considero muito importante uma visão mais aprofundada das coisas. Vejo muita gente com um
discurso business, muita gente com pose de artista cool, muita gente que fala em "computês" como se
fosse um programador ,mas vejo muito poucas pessoas com uma visão mais abrangente das coisas, uma
visão que vá além do universo do design. E considero isso um erro crasso, algo que é em grande parte
responsável pelas tradicionais choradeiras dos designers ("o cliente nunca aprova o que faço", "o
micreiro roubou meu trabalho", enfim, aquelas coisas que todos estamos cansados de ouvir). Nós nos
comunicamos com as pessoas, com a época em que vivemos, com os aspectos
sociais/político/culturais/econômicos do mundo de hoje - e se não nos interessarmos por isso, vamos
continuar falando sozinhos ou compartilhando lamúrias nas tradicionais mesas-redondas sobre "como
valorizar a profissão" e congêneres.
Em meio a tantos softwares, mixagem de fontes, releituras... ainda há espaço para a invenção
tipográfica?
Sim, inclusive acho que os softwares, as mixagens, releituras e etc. também são parte do que considero
"invenção tipográfica". Algumas pessoas classificam como "invenção tipográfica" apenas o que é feito
com os parâmetros e os processos pré-computador, tem uma visão extremamente dogmática que eu não
concordo muito não - acho que limitar a priori o que é correto e o que não é - não apenas em
tipografia como em qualquer outra coisa - não é algo saudável.
Os resultados finais de um projeto de design estão intimamente vinculados ao seu modo de produção e
às ferramentas disponíveis para sua execução. Se hoje o computador e os softwares gráficos são parte
fundamental desse processo, então isso altera também os paradigmas de muita coisa - tipografia
inclusive - e não vejo porque algumas pessoas ainda resistem a isso como se fosse, por princípio, uma
coisa ruim, repetindo que é uma coisa "fácil" que "faz sozinho" o trabalho.
A REX DESIGN
Conte um pouco da história da Rex Design. Como ela nasceu?
Eu, o Kato e o Valter somos da mesma turma da FAUUSP, nos conhecemos lá. No segundo ano de faculdade,
em 1991, começamos a fazer uma revista em quadrinhos (na verdade um fanzine metido a besta) e
descobrimos que havia um Laboratório de Produção Gráfica disponível aos alunos (mas que quase ninguém
utilizava). Passamos então o resto dos anos de faculdade praticamente enfurnados lá, mexendo em
quase tudo o que podíamos, descobrindo os processos gráficos, fazendo experiências... Com o passar do
tempo, começamos a participar de concursos de design gráfico, os resultados foram bastante animadores
e acho que isso foi dando confiança para que fôssemos nos aprofundando cada vez mais. Depois de nos
formarmos trabalhamos por uns dois anos em um escritório e em 1997 cada um pegou seu computador,
alugamos uma casa, compramos um telefone e montamos a Rex.
Desde então temos crescido bastante - mudamos de casa, temos uma equipe de 16 pessoas -, mas sempre
preocupados em não deixar com que a Rex perca a nossa cara, que nos afastemos da criação dos projetos.
Ao mesmo tempo em que adquirimos grandes contas - Omo para a América Latina, Lux para o mundo todo -
mantemos uma produção constante de trabalhos experimentais e não lucrativos, assim como trabalhos
comerciais com orçamentos pequenos mas com maior liberdade criativa...No fundo temos algumas posturas
meio de guerrilha: concorremos com as grandes mas do nosso jeito, sem gravata, sem mocinhas do
atendimento, sem assessor de imprensa...ao mesmo tempo somos experimentais sem ficar posando de
cool... não queremos que nada mude o que somos.
Quais os trabalhos que mais se destacaram e porque?
É um pouco difícil falar dos nossos trabalhos que mais se destacaram. É lógico que temos aqueles
trabalhos que foram publicados em revistas, os que ganharam prêmios, os que são para marcas de grande
visibilidade etc...mas para nós não dá para dizer que eles são os que mais se destacaram. Ás vezes um
trabalho que gostamos muito passa batido nessas coisas e outro, que não damos muita bola, é super
exposto e tudo mais...a coisa foge um pouco do nosso controle. Acho que a camiseta 'Arial Não' é o
grande exemplo disso, começou como uma brincadeira para alguns amigos, foi sendo divulgada, crescendo
- as pessoas mandam email dizendo que querem participar do 'movimento' Arial Não . Na verdade a gente
vai fazendo as coisas, o que acontece com elas depois não tem muito como prever (é como criar um filho
e depois soltar no mundo, imagino).
Como a Rex vê o mercado atual de design no Brasil?
Apesar de ainda incipiente, o mercado vêm crescendo ano a ano - há uma tendência geral de se procurar
contratar os trabalhos de um designer (por mais que muitas pessoas não saibam muito bem o que fazer
com ele depois que o contrataram). Percebemos também uma tendência a especialização - agências de
embalagem, web design, gente especializada em editorial, etc... - que na verdade não é muito a nossa:
nós ainda tentamos ter uma atuação muito abrangente, transitando pelas mais diversas áreas de atuação
possíveis dentro do universo do design gráfico. Mas percebemos que, por causa dessa tendência, temos
que montar estruturas de funcionamento e pessoal específicas para cada área.
Como funciona o relacionamento com as agências de publicidade na hora de produzir para grandes
marcas, que lidam com diversos fornecedores e campanhas ao mesmo tempo?
Na verdade não há um relacionamento no sentido de discussão de projetos. Em geral quem coordena os
diversos profissionais envolvidos no processo de comunicação das grandes marcas é a área de marketing
da empresa e é ela quem interage com esses profissionais - cada qual a seu momento.
A ADG
Estando desde 2000 na diretoria da ADG, quais as mudanças que esta diretoria promoveu e quais
as principais realizações programadas até o fim desta gestão em 2004?
Acho que a principal tarefa que temos enfrentado é a reestruturação operacional/financeira da ADG.
Operacional por causa do aumento expressivo de associados (somos hoje a 6ª maior associação de design
gráfico do mundo segundo dados do Icograda) - o que faz com que surjam cada vez mais demandas
específicas - na ADG existem desde os grandes escritórios dos grandes centros financeiros do país até
jovens recém formados em cidades pequenas, e tentamos atender às necessidades de todos - o ADGPack,
lançado mês passado é uma das ações para alcançarmos esse objetivo. Financeira porque, desde 1999 o
mercado gráfico - que através dos nossos parceiros praticamente 'bancava' muitas de nossas atividades
(porque, uma coisa que a maioria das pessoas não sabe, o sócio da ADG é deficitário para a associação:
o que ele recebe nos custa mais do que ele nos paga, apesar da percepção das pessoas ser bem diferente
disso...) vêm apresentando uma mudança de postura que fez com que tivéssemos que reestruturar o modo
como gerenciamos nossos projetos, tentando torná-los auto sustentáveis. Sabemos que essa
reestruturação é um trabalho de base, que quase não aparece para o associado, mas sabemos também que,
sem ela, não poderemos cumprir a médio e longo prazo de forma efetiva com o que nos propomos a fazer.
Neste ano já tivemos algumas realizações importantes, como a organização do concurso para a escolha
da marca dos 450 anos da cidade de SP, em conjunto com a Prefeitura, que ajudou muito a difundir a
ADG e o design gráfico para o público em geral; também acabamos de lançar o livro 'O Valor do Design
- Guia de prática profissional do designer gráfico' um reedição bastante ampliada da versão de 1998.
Além disso, a grande meta é a realização em maio do ano que vem do Regional Meeting do Icograda em
São Paulo em conjunto com a VII Bienal de Design Gráfico: um grande congresso internacional com
palestras e workshops .Será a primeira vez que o Brasil sediará um evento desse porte, o que além do
intercâmbio com profissionais do mundo todo, ajudará o design nacional a ganhar projeção
internacional (na verdade tem ajudado, já que conseguimos que o Brasil fosse capa da Communication
Arts do mês passado).
Como a ADG vê o surgimento de outras associações, como a ADP (Associação de Designers de Produto)
e a SBDI (Sociedade Brasileria de Design da Informação)? Eram brechas na atuação na ADG ou
necessidades de organização profissional?
São associações em geral complementares à atuação da ADG, o que é muito salutar. É importante, contudo,
que exista interação entre as associações, como fizemos com o Fórum da Paisagem em que reunimos
diversas associações sob uma mesma bandeira. Também mantemos contato constante com associações de
design gráfico regionais e esperamos cada vez mais estreitar esses laços: cada vez mais é hora de
somarmos esforços.
Qual o papel da ADG na formação dos futuros designers? Existe um acompanhamento das escolas
superiores de design?
Na ADG temos a Comissão de Ensino, formada principalmente por profissionais do meio acadêmico;
algumas faculdades também nos procuram para ações em conjunto como palestras, debates... é importante
deixar muito claro que a ADG não pode, por exemplo, interferir no currículo de uma escola.
Mas é curioso o processo de inversão que existe nessa história: a ADG pode fazer muito pela formação
dos novos designers, já que é uma organização aberta, promove uma série de eventos e publicações
(ainda segundo o Icograda, é a primeira associação do mundo em termos de produção para os associados),
tem comissões de trabalho para projetos específicos, promove o intercâmbio e a troca de idéias e
experiências entre os profissionais da área. O problema é que os novos designers não devem esperar
que a ADG vá até cada um deles, eles é que devem ir até a ADG para discutir os assuntos que consideram
pertinentes. São os designers - jovens ou não - que constituem a ADG.
Quando eu comecei a participar da ADG eu fui porque tinha provavelmente as mesma dúvidas/problemas
que 99% por cento dos estudantes e recém-formados têm, foi uma coisa natural: eu quero trabalhar com
design gráfico, existe uma associação de designers gráficos - por que não ir até lá? Eu não conhecia
ninguém...Fico impressionado com a falta de interesse que muitas das pessoas que estudam design
gráfico demonstram pela profissão: fazem a faculdade de forma burocrática, começam a trabalhar
também de forma burocrática e depois reclamam que a profissão não é regulamentada, que a ADG é uma
panelinha, que ninguém entende o que é design...Acho que precisamos, todos, ter uma postura mais
ativa com relação a nossa profissão - temos que ir atrás das coisas mesmo, ninguém vai fazer isso
pela gente.
Quanto à banalização da atividade, com cursos de banca e outros não-profissionalizantes, cursos
superiores pipocando pelo país, como a ADG vê esta questão? Existe uma política de conscientização,
ou, por outro lado, de fiscalização? A ADG tem esse poder?
Sempre que sabemos de alguma atividade que fere o Codigo de Ética da ADG ou que consideremos que seja
danosa ao design gráfico brasileiro, buscamos entrar em contato com o responsável e esclarecer os
procedimentos/posturas que consideramos incorretos.
Contudo, o fato é que não temos poder de, por exemplo, impedir uma editora de publicar um curso de
design gráfico em fascículos. Recebemos muitos e-mails indignados (e por muitas vezes extremamente
grosseiros) nos condenando por uma suposta omissão nesses casos, como se devêssemos agir de forma
autoritária e tivéssemos o papel de donos da verdade. Mesmo que tivéssemos o poder para tomar tais
atitudes não o faríamos: acreditamos que nosso papel seja o de agir de forma séria, divulgando aquilo
que acreditamos - e dessa forma contribuindo para que o bom design gráfico seja divulgado.
Autoritarismo e força bruta não são a solução para nada.
Site da Rex Design:
www.rexnet.com.br
Site da ADG:
www.adg.org.br
Para falar com o Gustavo:
gustavo@rexnet.com.br
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