01. Autodidatas X Formados - Qual a importância da formação acadêmica para o
designer brasileiro?
formação acadêmica foi e sempre será importante, ainda que a faculdade não
seja aquele laboratório de experimentação desejado por tantos. É fundamental a
troca entre alunos e professores, principalmente quando ambos põe seus egos
de lado. Agora, esse periodo é apenas um pequeno alicerce dentro do conjunto.
Não seria exagero dizer que vinte porcento da formação estejam lá dentro. O
resto é um combinado de experiências profissionais durante aquele período de estudo,
e após a formatura, de forma bem gradual.
Não somos os profissionais de formação imediata, pois nossa experiência advém
da carga emotiva ao longo dos anos. Precisamos constituir uma biblioteca
interna, um acervo visual vasto e integrado, o que se dá com o tempo. A tendência é que
nos tornemos verdadeiramente aptos aos quarenta, pelo menos. À partir desse
ponto, a evolução profissional prossegue em bases mais constituidas.
02. Ainda há espaço para a invenção tipográfica?
Sim. Negar isso seria como dizer que nao sao necessarias novas musicas.
03. O Design de Bolso de tornou uma publicação reconhecida no meio de design
brasileiro e é verdadeiro objeto de culto entre estudantes e jovens
profissionais, aqueles que possuem suas primeiras edições nem emprestam. Vocês imaginavam
tamanho retorno?
Não, certamente. O DDB surgiu em cima de nossa frustração profissional, da
raiva acumulada por não estarmos produzindo nas condições que desejávamos. A
questão do retorno era secundária, pois o importante era a catarse, uma forma
de por pra fora aquela energia. É claro que a receptividade ao longo dos
exemplares mostrou que havia um caminho maior, uma sintonia com muitas pessoas que
compraram a idéia e a divulgaram por conta própria. À partir daí, o Design de
Bolso comecou a ser uma linha mestra, o nosso modo de pensar e agir para com
o design. E dele vieram as outras áreas de experimentação, bem como a postura
profissional do escritório.
04. Como vocês vêem a questão da regulamentação da profissão?
Desde que ela não seja um protetorado para o profissional de má índole, ou um
curral para formar e perpetuar "panelas", nós sempre a apoiaremos. Ela pode
ser importante como oficialização da carreira frente à sociedade, mas decerto
nao é a solução dos problemas. Estes podem ser resolvidos à medida em que
os designers derem mais valor a si propriós, sabendo posicionar-se no mercado
e mostrando seu diferencial pelo trabalho, e não por uma lei ou diploma apenas.
Há que se mostrar a atitude na capacidade de realizacao mental, e não nos
equipamentos e recursos técnicos.
05. No que a internet tem colaborado/prejudicado em termos de divulgação da
profissão no Brasil?
A Internet agiliza e amplia à enésima potência o fluxo de informações. Aquele
que estiver estruturalmente preparado, filtrara o material pertinente,
ampliando suas possibilidade de conhecimento, ao passo que o despreparado acolherá
tudo sem critérios, repetindo soluções e erros a esmo.
06. Existe uma preocupação crescente em atribuir uma identidade brasileira
aos trabalhos de design produzidos aqui. Ao mesmo tempo a
internacionalização das estéticas e tendências pasteuriza o nível dos
trabalhos. Vocês acreditam que nesse cenário é possível caminharmos para um
design tipicamente brasileiro ou não? E em que medida isso é bom ou ruim.
A troca de experiências e soluções é irrevogável, e o profissional pode
conviver com essa realidade sem problemas, desde que entenda seu posicionamento
regional e global. É um erro pensar em criar algo com a cara de um pais ou
povo, já que isso não é emocionalmente sincero. O que pode - e deve - ser
feito, é o entendimento da realidade local, da cultura e do cenário
histórico e social ao redor. A vivência dessa realidade é a chave para o
desenvolvimento natural de um linguagem que pertença àquele contexto.
07. Como foi o início de carreira? Muitos profissionais se formam e não
sabem que direção seguir. Como foi essa experiência para vocês? Vocês sempre
estiveram juntos?
Nos conhecemos desde os tempos de ginásio, mas o encontro profissional se
deu em 1995, em outra sociedade. Eu (Elesbão) estava reformulando minha
formação acadêmica e dando outro rumo às atividades profissionais no meio,
enquanto o Cláudio (Haroldinho), partindo da experiência em um escritório de
design, saía da Faculdade de Administração rumo ao curso da EBA/UFRJ. À
partir de seu convite, montamos um escritório com uma terceira pessoa, e de
lá saimos para a proposta atual, dois anos depois.
08. O uso de multimídia é uma das marcas da dupla. O Freak Show, as
montagens em áudio no site e outros trabalhos da carreira ajudaram a
construir a imagem de dois-caras-que-são-um-pouco-mais-que-designers.
Como é esse dia-a-dia de trabalho?
Nosso dia de trabalho é absolutamente normal. Se há uma diferença, pode
ser no trato com essas diversas mídias durante o dia, parando um vídeo
para dar continuidade a uma multimidia, ou a uma trilha, ou mesmo a um
texto referente a algum evento nosso. A transição entre os trabalhos é
saudável, impedindo que haja um desgaste maior entre as atividades. Há
uma grande sintonia, que permite às idéias de um serem acolhidas pelo
outro sem grandes "poréns". Gostamos de pensar, brincando, que "pior
do que ter a idéia, é a outro aceitar, mesmo que seja uma aparente 'roubada'".
O importante é dar a cara a tapa.
Por conta dessas idéias extras que baixam, nosso expediente é variado e
flexível, durando em média 12 horas. Já viramos incontáveis noites em cima
de projetos comerciais e outras tantas em atividades experimentais, que não
tem retorno monetário direto. O importante é exercitar as possibilidades, e
manter o laboratório de idéias em pleno funcionamento. Finais de semana
são raros, mas estamos procurando descansar mais, para o bem da saúde
mental. Como diz o colega Billy Bacon, nossa profissão é "design", e nosso
hobby tambem.
Todas as atividades sao feitas por nós dois, da resposta dos e-mails à
faxina, e isso tem complicado o andamento de alguns projetos. Pensamos
em colocar um estagiário para dar uma força dentro em breve.
09. O povo quer saber (apesar de não ser a primeira nem a última vez que a
pergunta é feita): de onde vem os nomes Elesbão e Haroldinho?
Aproveitamos dois apelidos surgidos em cima da personalidade de cada um,
"Elesbão" (personagem do extinto "TV Pirata") como sendo o introspectivo,
fechado, e Haroldinho (de uma piada onde o sujeito conhece todo mundo) o
mais social, extrovertido. Como a sonoridade nos pareceu perfeita, adotamos
de imediato, e começamos a desenvolver a questão dos personagens.
A maioria dos escritórios de design tem nomes óbvios ou muito previsíveis, o
que confunde as pessoas na maioria das vezes, tamanha a sua semelhança.
Nossa intenção, acima de tudo, era fugir desse "lugar comum", e criar uma
identidade própria - literalmente.
É claro que encontramos problemas no início, relacionados à "sisudez" dos
clientes, como no trabalho para o concerto de louvação à vinda do Papa, por
exemplo. Tivemos que bater de frente com a prefeitura, para manter o nome
do escritório no projeto. Felizmente, isso não acontece mais hoje em dia.
10. Quando sai o novo site?
Uma pessoa foi encarregada de montar o site. Nosso dever de casa é preparar
o material e entregar "mastigado" para ela compor. O conceito, que é o mais
importante, já foi definido. Não podemos falar em prazos, mas queremos que
ele não demore por razões óbvias. Vamos disponibilizar, entre outras coisas,
os PDFs do Design de Bolso, que já estão prontos. A idéia é que o site seja
lancado junto com a nossa nova multimidia (e, quem sabe, com o novo Kit
Promocional).
Uma das razões para a eterna novela do site é que web é, possivelmente,
a única área em que não atuamos, por desconhecimento do ferramental.
Pode ser que comecemos a sondar essa área, mas não há nada definido
até o momento. Ainda resta muito trabalho nas outras midias.
---------------------------------
- ELESBÃO e HAROLDINHO /dizáin/ -
http://www.elesbaoeharoldinho.com
|