os dias mais depressivos desse momento de pessimismo mais ou menos geral
por que estamos passando - e que, tenho certeza, vai mudar - tenho ouvido,
variadamente, que vão acabar as agências de propaganda, que os donos do
negócio perderam o bonde e estão insistindo num modelo falido, que os
anunciantes não estão mais interessados em comunicação persuasiva, etc. etc.
Suspeitavelmente, boa parte desses vaticínios sombrios são formulados por
gente que trabalha nas empresas anunciantes - os clientes das agências - e
eu desconfio que fazem isso em razão de uma inveja histórica que eles -
gerentes de marketing, de produto ou de marca - têm dos publicitários,
sobretudo da turma da criação - gente que parece ganhar (e se divertir) bem
mais do que eles. Já estive dos dois lados e concordo que mesmo agüentar os
clientes - do lado da agência - é, de fato, mais palatável do que enfrentar
certos problemas de fabricação, distribuição e - sobretudo - financeiros.
Oxalá houvesse mais agências - e mais empregos, para todos, nas agências.
Mas será que a agência de propaganda é mesmo um modelo de negócio
obsoleto e falido? Tenho dúvidas enormes.
O modelo atual nasceu na segunda metade do Século 19, como resultado de
uma necessidade da criação de mensagens específicas de venda para os
produtos e serviços - entre o seu produtor e o veículo de comunicações. Quem
deu origem à agência foi o veículo, abrindo mão de 15% (no Brasil, 20%) do
preço da propaganda para que os novos profissionais especializados - os
publicitários - criassem os anúncios.
Na verdade, o que provocou o problema - que hoje se discute até na
justiça - é que a grande proliferação de veículos diminuiu o custo geral
para atingir os consumidores, mas as agências tiveram de proteger a sua
parte a fim de pagar os altos custos de uma criação de qualidade, acoplada à
prestação de outros serviços. E também o fato de que o cliente passou a
pagá-las, no lugar dos veículos.
Diante do inevitável enxugamento das comissões, os grandes grupos
internacionais de agências - mais ligados ao management de seus clientes -
começaram a entrar em pânico e a criar megacorporações para a prestação de
serviços integrados de comunicação, recorrendo, também, a estratégias de
"alinhamento": uma variedade do tradicional e conhecido processo de
cartelização.
Agora vem a revista Business Week (20.1.2003) e afirma que os clientes
não estão mais satisfeitos de colocar todos os seus investimentos em
comunicação na mesma cesta, por mais barato que seja o preço final. A
agência independente deve voltar à moda...
No fundo dessa questão está a definição do core business de uma agência
de propaganda do modelo tradicional. Que não é o de intermediar boas compras
de mídia ou saber fazer bom lobby político, mas sim de criar bons anúncios e
boas campanhas, tendo como ingredientes principais a percepção acerca do
comportamento do consumidor e a sensibilidade para transmitir-lhe conteúdos
claros, pertinentes, originais e persuasivos. Ou seja, publicitários são
gente que entende de gente, sabe como se comunicar com eles - e vende essa
habilidade no mercado. Acho que esse negócio nunca vai sair de moda.
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J. Roberto Whitaker Penteado .::. whitaker@grito.com.br
Membro do Conselho Superior da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Diretor do
primeiro curso regular de marketing no Brasil, criado pela Fundação Brasileira de Marketing.
Jornalista, professor, conferencista, consultor de empresas, escritor e poeta. Graduado em
Economia e Pedagogia, mestrado em Ciências Políticas (IUPERJ) e doutorado em Comunicação e
Cultura - ECO/UFRJ. Tem 7 livros publicados. Redator do "Codigo de Etica do Profissional de
Marketing" do Brasil. Conheça o site:
www.jrwp.com.br.
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