hocolat (2000, Miramax) não é um filme ruim. Alcançou cinco indicações para
o grande prêmio da academia de cinema. Porém, se dessem um Oscar para a Melhor Direção de
Tipografia, esse filme não estaria entre os indicados.
O filme se passa numa pequena cidade provinciana da França, em meados dos anos 50. Lá pela metade
do filme, o prefeito da cidade distribui notificações proibindo qualquer um de comer qualquer coisa
além de pão e chá fraco durante a Quaresma (o que, é claro, coincide com a abertura da nova
chocolateria). Quase ri quando mostraram um close da notícia. A manchete estava escrita em ITC
Benguiat, um tipo lançado em 1978 e muito popular nos anos 80.
Provavelmente o erro seja imperceptível. ITC Benguiat foi desenhada imitando o estilo Art
Nouveau. É quase como se o Art Nouveau continuasse sendo usado na França provinciana dos anos 50. Mas
certamente não a ITC Benguiat. Ela nem existia.
Conhecer esses pequenos deslizes em filmes pode acontecer com qualquer um que possua conhecimento
específico em qualquer campo. Um amigo meu no colegial era aficcionado por telefones e gostava de
contar que o tipo de telefone que aparece numa cena próxima ao final do filme American Graffitti
(1973) não existia em 1962. Para ele era tão flagrante como se tivessem colocado Paul Le Mat dirigindo
um Camaro.
É bastante irreal esperar esse nível de atenção aos detalhes num filme. Há coisas mais importantes
para se preocupar durante as filmagens. Além disso, o número de pessoas que percebem essas coisas
como um tipo anacrônicos é pequeno. Tenho certeza que eles raramente reclamam.
Até agora, é certo.
A seguir, faço um resumo cuidadoso de filmes que me chamaram atenção ao longo dos anos pelo seu uso
(ou mau uso) de tipografia de época.
De início, gostaria de dizer que os tipos usados nos títulos não necessariamente valem, uma vez que
existem mesmo fora do mundo retratado no filme. Por exemplo, o filme Eight Men Out (1988) usou
o tipo Módula desenvolvido pela Emigré em 1987 em seus títulos (desenhados pela M&Co.). O
filme se passa em 1919. É discutível qual seria a escolha apropriada, isso seria um assunto de
preferência pessoal, não de fidelidade histórica.
A pontuação abaixo foi atribuída de uma a cinco estrelas indicando quão bem a tipografia é usada para cada
filme:
Uso praticamente perfeito da tipografia
da época, erros, se existem, são difíceis de encontrar
Bom uso da tipografia da época, erros
menores aqui e ali
Uso razoável da tipografia da época, erros
maiores ocorrem ocasionalmente
Pouca atenção à tipografia da época, a
tipografia correta só aparece em artigos de época
Nenhuma atenção à tipografia da época,
apenas tipos gratuitos para Macintosh ou PC são usados
Dead Men Don't Wear Plaid (1982, Universal Pictures). Neste caso o filme é uma paródia do
gênero film noir, portanto os títulos são parte do mundo que o filme retrata. As escolhas
foram Newport (1932) e Brush Script (1942), marcando o período, mas o estilo dos
créditos está errado. Nos anos 40, os títulos dos filmes eram geralmente escritos à mão em cartões
mostrados em sequência.
Títulos à parte, uma cuidadosa atenção é reservada aos detalhes. Contrataram inclusive a veterana
designer de moda de Hollywood, Edith head (trabalho pelo qual ela ganhou um Oscar depois) e criaram
cenários e iluminação para mesclar a métrica existente dos filmes clássicos. O filme recebeu vários
elogios por essa atenção aos detalhes, mas com certeza ninguém mencionou o uso da Blippo, um
tipo pop-art dos anos 70, no panfleto do cruzeiro.
Os jornais vistos em várias cenas também são problemáticos. Eles parecem mais leitura para crianças
do que jornais de verdade.
Por outro lado, o uso de marcas (especialmente a escrita à mão no armário de remédios) acertam bem no
alvo. Afinal, um filme bem divertido, mas irregular no uso dos tipos.
Tucker: The Man and His Dream (1988, Lucasfilm, distribuído pela Paramount Pictures). Este filme
é uma homenagem de Francis Ford Coppola a Preston Tucker, o gênio automotivo além de seu tempo dos anos
40. Se Tucker tivesse seguido em frente, todos os carros teriam cintos de segurança como equipamento
de linha em 1950 e estaríamos dirigindo carros com melhores recursos. Em todo caso, é um grande filme,
realizado com carinho, que faz um trabalho louvável de recriação dos anos do pós-guerra.
Não há muita tipografia nesse filme, mas o que há é bem feito, incluindo os títulos, que são como se
tivessem sido tirados de um verdadeiro filme dos anos 40. Há um monte de boas marcas (como o gigante
letreiro da fábrica TUCKER), mas há um que não está absolutamente certo.
O oficina de Tucker na fazenda de sua família tem um letreiro (abaixo) escrito em grande, tridimensional...
Helvetica. Não sei como deixaram passar essa.
Embora Helvetica (1957) seja parte de uma longa linha de tipos sem serifa que vieram de meados
do século XIX, não era comum ver tantas letras em letreiros americanos até pelo menos os anos 60,
especialmente o tipo genérico que é usado no filme.
Dead Again (1991, Paramount Pictures). Kenneth Branagh e Emma Thompson fazem um casal moderno
que é a reencarnação predestinada do par anterior, um deles executado pelo assassinato do outro no
final dos anos 40. Os títulos figuram como montagens de closes de jornais explicando a triste sina
do casal anterior.
As notícias são razoavelmente bem feitas e até parecem ter sido prensadas com letterpress,
como a maioria dos jornais eram até os anos 70. Mas percebi algumas extravagâncias, claro. Primeiro,
enquanto todos os tipos usados eram compatíveis com a época, o tipo dos textos mostrados era
Caledonia, um tipo para livros que seria uma desagradável escolha no caso de jornais. Jornais
geralmente usavam (e ainda usam), bem, tipos para jornais. A outra coisa é que embora algumas das
manchetes aparentem ter sido impressas com tipos de madeira - uma prática que se mantinha comum nos
anos 40 - eles são todos muito bem espaçados (tem o kernel muito bem feito).
Tecnicamente, seria possível fazer um bom kernel com tipos de madeira cortando fisicamente partes do
tipo, mas isso seria um cuidado demasiado, impraticável para um jornal.
Ed Wood (1994, Touchstone Pictures). Eu adorei esse filme, e não foi pelo seu uso da tipografia.
O filme começa bem, mixando perfeitamente o estilo de um filme original de Ed Wood dos anos 50 nos
créditos da abertura, mas assim que marcas e jornais começam a aparecer, começa também o vexame.
Closes dos jornais mostram manchetes em vários corpos da família Helvetica junto a outras
manchetes de boa qualidade aparentemente tiradas de jornais de verdade (a maioria Erbar Light,
1934).
Ainda mais implausível, algumas delas estão oticamente distorcidas - uma prática que não era comum até
o advento da composição digital de tipos, e que na realidade seria praticamente impossível na impressão
de jornais da década 50. Outro anacronismo brilhante é a marca no edifício Screen Classics que fica
em Chicago no filme, com a fonte original do sistema Macintosh (TrueType, 1991). É muito
estranho de se ver, uma vez que a composição é grande e tridimensional, aparentemente feita à mão
para ser colocada na fachada do edifício.
Tão esquisito quanto, o mesmo logotipo está pintado à mão numa porta de vidro dentro do edifício.
Sempre achei que Chicago tinha uma qualidade excêntrica de Art Deco. Aparentemente algumas pessoas
pensam que isto é um tipo Art Deco.
Do lado brilhante, há algumas faixas pintadas à mão em algumas poucas cenas que são extremamente
corretas.
The Hudsucker Proxy (1994, Warner Bros.). Eu sou um grande fã dos filmes dos irmãos Coen e
este é o meu favorito. Tipograficamente, entretanto, seus filmes são uma sacola de surpresas. Uma
complicação ao criticar suas tipografias é a dificuldade de precisar em que década exatamente o
filme estaria se passando. De acordo com a história, seria no final dos anos 50, porém ele se parece
mais com os anos 40, ou até mesmo os anos 30. Contudo, boa parte da tipografia está, no mínimo, fora
de lugar. Em sua maior parte eles escolheram tipos que servem mas que efetivamente não existiam 50
anos atrás. Um bom exemplo é o logotipo corporativo da Hudsucker que parece ter vindo dos anos 30 ou
40, porém em tipo Bodega Sans (1991).
Também é bastante usada no filme a Univers, um tipo sem serifa que - lançado em 1957 - não era
comumente visto até pelo menos o final dos anos 60, especialmente para um uso tão despretensioso
quanto uma placa de mecânica, por exemplo.
That Thing You Do (1996, 20th Century Fox). É um filme bem divertido de se assitir. Apesar de
que eu só tinha 8 anos em 1964, o filme realmente parece captar o visual e o espírito dos anos 60.
Há realmente um grande atenção aos detalhes tipográficos: selos de gravadoras, manuais de produtos,
jornais, até mesmo o papel de embrulho de remédios. Tudo se parece com o realmente deveria se parecer.
Alguém fez o dever de casa muito bem feito neste detalhe (ou gastou um monte de horas em lojas de
produtos colecionáveis). A aplicação do selo da loja The Patterson´s é identica aquela que
ainda resta no museu Smithsonian, é muito perfeita. Só fui capaz de achar um único detalhe fora de
contexto: logo cedo no filme, uma Billboard aparece rapidamente na tela, e tem algumas inscrições
em Helvetica Bold.
Este é único detalhe um tanto implausível.
L.A. Confidential (1997, Warner Bros.). Um filme altamente venerado, rigorosamente escrito,
bem atuado, lindamente filmado, mas medíocre no uso da tipografia. O filme se passa no começo dos
anos 50, mas a tipografia é claramente de outra época. "HUSH-HUSH", uma revista de fofocas de
Hollywood, é apresentada proeminentemente com um grande logo em Helvetica Compressed (1974).
Um jornal datado de 1953 tem as manchetes formatadas em Helvetica Black (1959) e Univers
(1957) - tipos que não estavam largamente disponíveis nos Estados Unidos antes dos anos 60.
Um outro jornal tem a palavra "EXTRA" estampada no topo sobre fundo preto em ITC Kabel Black
(1976) oticamente expandida.
Fazendo uma concessão, há também traços de boa tipografia e boas marcas aqui e ali, mas parece mais
uma coincidência de quando foram criar os acessórios tipográficos do filme.
Pleasantville (1998, New Line Cinema). Este é um filme que parece ser obcecado com os
detalhes, como se fosse esperado que ele fosse ser assistido debaixo de um microscópio por um
catador de piolhos como eu.
Parece perfeito demais até para com os detalhes da época - não no sentido de como os anos 50
realmente fpram, mas sim no sentido idealizado como a televisão os retrata. Há realmente muito
pouca tipograifa neste filme. Eu penso que peguei uma falhanuma cena inicial - Comic Sans
(1995) usada numa figura pseudo promocional dos anos 50. Ate onde eu entendi a figura deveria
parecer ter sido feita no presente (presumivelmente por designers tentando fazer um livro retrô).
Se foi intencional, foi um uso muito misterioso do tipo. Há um monte de marcas bem pintadas à mão,
faixas e marcas e nada para se queixar, muito menos a tipografia.
Almost Famous (2000, Dreamworks SKG). Esta é ficção de Cameron Crow de como ele começou a
escrever para a revista Rolling Stone. É supostamente 1973, ano do qual me lembro muito bem.
Devo dizer que eles fizeram um grande trabalho de reconstituição, mas não foi há tanto tempo assim.
Assim, há amplas oportunidades para tipos num filme sobre um cara que escreve para uma revista.
Surpreendentemente, não há um monte de tipos mostrados na tela, e o pouco que é mostrado é correto
para o período (pré versão ITC da Kabel Black, por acaso). Exceto por um pequeno detalhe
próximo ao final do filme. Eu não fui um leitor ávido da Rolling Stone nos anos 70, eu devo
ter perdido esta parte. Há uma montagem que inclui um close de um pacote de revistas. Aparece a
primeira triunfante matéria de capa do aspirante a jornalista William Miller.
O logotipo e a foto parecem bons, mas a manchete principal está em ITC Galliard (1978). Além
do fato de serem cinco anos mais cedo, até onde eu sei este tipo nunca foi usado na capa da
Rolling Stone. [o leitor Tim Horrigan aponta também que a Rolling Stone é mostrada
com uma capa menor antes de 1974, e este design não é característico para a revista durante este
período.]
Assista ao trailer deste artigo, em Flash.
"Copyright 2001 Mark Simonson"
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