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A contemporaneidade é a vilã dos designers?

20:ago:2001

ocês provavelmente já pararam para pensar sobre os padrões na web, certo? O que é padrão funcional e o que é o uso indiscriminado das tecnologias de produção na web? A pergunta que não quer calar: Por que existem resposta tão próximas na web, mesmo para perguntas diferentes?

Desde o início das civilizações os homens tentam se comunicar e com isso tentam criar padrões para a normatização da comunicação. O homem cria signos para poder representar aquilo que quer comunicar. Essa necessidade de representação manifesta-se o tempo todo no ser humano já que o cérebro não pára, um só minuto, de processar os dados colhidos. Só depois do processamento dos dados é que se produz informação.

Durante a evolução do homem, os meios de comunicação foram se adaptando e se modificando à medida que modificavam as necessidades e os processos de comunicação. Quando o homem tribal inventou a escrita alfabética, ou seja, criou um código baseado na percepção e na experiência do seu povo, uma grande revolução se deu pois não era mais necessário depender da sua tribo para viver, ele poderia se libertar e viajar entre outras tribos para se comunicar. A partir daí o homem percebeu que comunicar-se não era tão fácil pois cada tribo tinha uma experiência e um repertório. Aplica-se esse conceito ainda hoje na era digital e na era da internet.

A internet é uma mídia híbrida, ou seja, é composta de linguagens diversas que atingem públicos diversos e traz, ao mesmo tempo, a possibilidade de se navegar através de palavras-chaves o que facilita a coleta de dados e o divertimento na rede.

Um dos pontos bastante interessante da linguagem da web é o próprio código html, isso porque ele é um código aberto a qualquer usuário e não está restrito aos programadores da própria página. É prática comum a busca de novos recursos em sites de empresas com mais tempo de mercado através dessa possibilidade de verificação que o próprio meio oferece. Porém a busca de recursos acaba gerando o uso do próprio layout como referência e é neste momento que se verifica a chamada padronização da web ou a linguagem da web.

As regras dos projetos estão baseadas na velocidade, já que ainda não é de acesso a todos os usuários a conexão de banda larga. As imagens precisam ser pequenas para que o usuário não se canse de esperar pois existem inúmeras oportunidades disponíveis na rede.

E é nesse contexto de velocidade de informação e de público diversificado que surgiram os portais da rede. Eles são comunidades que tentam atingir todos os tipos de usuários da rede e adaptam-se às necessidades de cada um deles.

Os portais tratam a comunicação via web como mídia de massa: usando pouco texto, muitas imagens e poucos ícones, usando o nível mínimo de comunicação, padronizado pelo repertório comum tanto do leitor de web quanto de estética imposta pelo meio.

A leitura dos códigos nos portais da web deve ocorrer sem perturbar o público nem ferir seus hábitos pois, pelo fato de ser um meio em início de exploração, ele ainda não tem uma linguagem totalmente particular - qual meio tem? - e se apropria do que deu certo em outras mídias para comunicar.

No caso dos grandes portais há uma verdadeira guerra de velocidade com o que há de mais atual em nível de notícia/informação ao usuário. Mas essa informação ocorre de modo tão acelerado e efêmero que uma notícia substitui a outra de forma a operar numa obsolescência constante dos fatos e na incapacidade do receptor julgar e distinguir o que de fato é importante para a sua formação e para o seu cotidiano.

Toda essa produção incessante e acelerada causa atritos de contemporaneidade ou o chamado plágio do inconsciente coletivo - considerado aqui como o uso indiscriminado de fórmulas, templates e padrões dos primeiros sites produzidos e que ditam a tendência da web com a possibilidade do uso do código html aberto além dos softwares de programação que trazem arquivos modelos baseados nessa tendência dos portais . É muito comum encontrarmos visuais bastante próximos entre os portais, por exemplo, muito justificado pela "fórmula que deu certo".

Além do código e da ditadura dos grandes e primeiros portais da web podemos consider a imersão das pessoas num bolo de informações de acesso multimídia - o comercial da TV está no outdoor, que está na revista, que está na web em formato de banner - o que pode resultar em um inconsciente coletivo aonde as respostas podem vir a ser as mesmas. O caso não é de mensagem subliminar mas sim de imersão em mensagens comuns a muitas pessoas e através de vários meios.

Nesta imersão, encontra-se os designers que acabam produzindo de acordo com as tendências e a moda das produções correntes. É um imenso inconsciente global passível de aceitação desde que aplicados com coerência, ou seja, de acordo com a necessidade do site.

Há uma opinião bastante defendida pelos criativos que é a seguinte: quando um conceito ou o uso de algumas regras tem como resultado bom processos de recepção e leitura não se deve arriscar em produzir o novo. Na verdade, eu acredito que a produção deve ser com base em paradigmas individuais que podem ser também coletivos, mas não se pode produzir apenas com paradigmas coletivos pois os resultados serão apenas medíocres.

O uso indiscriminado dessas regras/conceitos/fórmulas, acaba direcionando as criações para uma resposta comum e pobre pois aquilo que o observador vê agora já foi visto de alguma forma - talvez da mesma e idêntica forma - em outro lugar.

O mais interessante é que podemos e devemos contar com a contemporaneidade como fator de renovação e não como fator determinante da tecnologia ao alcance de todos que nivela as produções.

A última ressalva: aquele que não sucumbe às ferramentas tecnológicas é capaz de ir além e produzir o novo, sair dos padões, quebrar paradigmas e produzir para uma sociedade de consumo com resultados menos óbvios e mais duradouros.

Helena Sordili .::. helena@grito.com.br
Designer, 25 anos, graduada pela FAAP e pós-graduanda em Design Gráfico pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo.
Professora de Design Gráfico da AnhembiMorumbi. Sócia-diretora da Carranca Web Design.

 
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